Textos críticos/ Critical text
voltar
 

O que não tem medida

Guilherme Wisnik

Galeria Gravura Brasileira
São Paulo, 2002

Massas negras bem recortadas sobre o fundo branco, fissuradas por pequenos cortes e deslizando em suave desequilíbrio. Não se sabe se os volumes são instáveis, tombando em movimento lento, ou se suas fissuras indicam apenas descontinuidades, que sugerem outros planos por detrás. O que se adivinha, de maneira mais imediata, é a referência urbana: blocos compactos, empenas cegas; espaços densos e fraturados, vistos sempre como um inescapável primeiro plano.Mas há outros elementos nas gravuras de Fernando Vilela que contrariam a idéia de uma poética citadina pura e simplesmente. Delicados veios de madeira definindo a superfície chapada emprestam uma urdidura artesanal ao que nas cidades é opacidade matérica. Além disso, algo como frágeis palafitas ou cercados de ripas – marcos do exílio urbano – parecem suportar esses imensos blocos, numa associação de contrários insólitos que se potencializam. Essa transferência simbólica resulta no amolecimento dos contornos, que faz com que surja de repente uma vela negra inflada, feita de cimento, de madeira, de pedra ou de nada. Ou talvez, o fragmento do casco de um navio muito próximo. É disso que trata o seu trabalho: um ir e vir entre o plano e o espaço que traduz, na leitura das linguagens, o caráter irrepresentável das escalas.Uma presença descomunal e oculta, levitando nas paisagens desoladas, ou o que se avista nas cidades para-além das superfícies de seus edifícios, e que permite perguntar: o que é que os separa, e o que é que os sustêm?

 

 

 

 

 











Contato: fevilela@gmail.com | F +55(11) 3875 6008